Gostaríamos de propor uma atividade rápida, que levará apenas alguns segundos. Pegue um papel e responda em poucas palavras a pergunta:

Para você, o que são cuidados?

Guarde a resposta para o final.
Montagem em preto e branco de uma mulher jovem negra sentada no chão com expressão pensativa, apoiando o queixo sobre a mão. Ela tem tranças longas e veste camiseta e calça. Atrás dela aparecem pontos de interrogação e formas gráficas coloridas em tons de laranja, roxo e verde, sugerindo dúvida ou reflexão.

O que são "cuidados"?

Talvez você já esteja imaginando que as respostas costumam variar bastante (e você tem razão!).

Embora as pessoas saibam na prática o que é cuidar, chegar a uma definição objetiva costuma ser desafiador. Isso porque o conceito ainda está em disputa, envolve diferentes agentes e, portanto, reúne muitas interpretações e narrativas.

Montagem em preto e branco de duas mulheres caminhando lado a lado. Uma mulher idosa usa bengala e segura o braço da mulher mais jovem, que a apoia enquanto carrega uma sacola de pão. Ao fundo, há formas gráficas abstratas coloridas em tons de roxo, laranja e rosa.Uma mulher que faz companhia à avó nas atividades, é cuidado?
Montagem em preto e branco de uma mulher e uma criança lendo juntas. A mulher segura o livro enquanto as duas olham para a página. Ao fundo, há formas gráficas abstratas em tons de verde e roxo... e a oferta de creches públicas nas comunidades é considerado cuidado?
Montagem em preto e branco de uma mulher lavando um prato com expressão de cansaço e desânimo. Ela usa luvas de limpeza e segura uma esponja. Ao fundo, há formas gráficas abstratas coloridas em tons de verde, laranja e roxo....e uma diarista executando atividades domésticas é considerado cuidado?
A resposta para todas essas perguntas é “SIM”!

O entendimento sobre o cuidado vem ganhando luz à medida que aprofundamos a nossa visão sobre suas camadas. No vídeo, a especialista Kelly Agopyan aborda sobre o que são os cuidados:

Percebeu que, como explicado no vídeo, o conceito de cuidado se torna cada vez mais complexo e rico? Uma atividade que, em sua maioria, acontece dentro dos lares é, na verdade, um trabalho essencial para o funcionamento de toda a sociedade (e muitas vezes invisível!).

Para conhecer mais profundamente o trabalho dessas e de outras pesquisadoras do cuidado, visite nossa biblioteca.
Montagem em preto e branco de uma mulher em pé apoiando com cuidado os ombros de um homem idoso que está sentado em uma cadeira de rodas. Ao fundo, há formas gráficas abstratas em tons de verde, roxo, rosa e laranja.

Quem cuida no Brasil?

No Brasil, a organização social dos cuidados está longe de ser perfeita. Os papéis de gênero ainda associam o trabalho de cuidado quase exclusivamente às mulheres. Quando incluímos o recorte racial, vemos que são principalmente as mulheres negras que exercem esse papel no país. Outro dado relevante: praticamente todas as mulheres realizam atividades de cuidado não remunerado, mas o número de horas dedicadas cresce à medida que a renda diminui.

O trabalho invisível dos cuidados e impacto na economia

Segundo a ONU Mulheres (2017), o valor do trabalho doméstico e de cuidados pode representar até39% do PIB dos países.
Montagem em preto e branco de uma mulher limpando um móvel com expressão cansada. Ela usa luvas e segura um frasco de produto de limpeza enquanto passa um pano na superfície. Ao fundo, há formas gráficas abstratas em tons de verde, laranja e roxo.
A Oxfam (2020) aponta que o valor monetário global do trabalho de cuidado não remunerado feito por mulheres a partir dos 15 anos é de$10,8 trilhões por ano(3x o valor do setor mundial de tecnologia).

A falta de reconhecimento das atividades dos cuidados agrava um problema já existente: o déficit de cuidados, que muitos chamam hoje de ‘crise dos cuidados’.

A ausência de políticas e serviços públicos que respondam de forma integral e intersetorial as demandas de cuidados, principalmente nos territórios mais vulnerabilizados, acaba por sobrecarregar as famílias e comunidades com a realização dessas atividades, tarefa que recaí majoritariamente sobre as mulheres.
Montagem em preto e branco de uma mulher lavando louça na pia, inclinada sobre o prato e com a mão na testa, sugerindo cansaço e sobrecarga. A água corre da torneira enquanto ela esfrega o prato. Ao fundo, há formas gráficas abstratas em tons de laranja, roxo e rosa.

5 R’s do Cuidado

Para enfrentar esse cenário, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) elaborou uma estrutura de recomendações que visa garantir o acesso adequado aos cuidados a quem precisa, e melhorar as condições de vida e trabalho das pessoas cuidadoras.

Ícone Reconhecer

Reconhecer

Reconhecer o trabalho de cuidado e visibilizar a importância do cuidado para a sociedade.
Ícone Reduzir

Reduzir

Reduzir o tempo dedicado à realização do trabalho de cuidado (não remunerado), por meio da expansão de políticas públicas que consolidem infraestruturas e sistemas de cuidado.
Ícone Redistribuir

Redistribuir

Redistribuir de forma justa o trabalho de cuidado entre os diferentes setores da sociedade - lados do Diamante dos Cuidados - e de forma igualitária entre homens e mulheres, superando os papéis de gênero.
Ícone Representar

Representar

Dar voz às pessoas cuidadoras, seja as remuneradas e não remuneradas, de forma com que possam participar da tomada de decisão e ter suas demandas supridas.
Ícone Remunerar

Remunerar

Remunerar de forma justa as/os trabalhadoras/es dos cuidados, garantindo trabalho decente e acesso à proteção social.
Elaboração: Kelly Agopyan (2025) com informações de MacGregor, Arora-Jonsson, Cohen, 2022; ILO, 2023.

Diamante dos Cuidados

Já a pesquisadora Shahra Razavi desenvolveu o Diamante dos Cuidados, um modelo que mostra como essa responsabilidade deveria ser compartilhada entre quatro grandes atores: Estado, sociedade civil, mercado e famílias. A ideia aqui é simples, mas poderosa: quando um desses atores não assume sua parte, os outros ficam sobrecarregados, que é justamente isso que vemos hoje nas famílias e comunidades.
Diagrama conhecido como ‘diamante dos cuidados’, composto por quatro esferas que representam os setores responsáveis pelas atividades de cuidado na sociedade: família (em verde), setores públicos e Estado (em laranja), setores sem fins lucrativos e comunidade (em roxo) e mercado (em rosa). No centro, há a forma de um diamante conectando esses quatro setores. Entre esses campos, apenas o Estado não tem o trabalho de cuidado realizado majoritariamente por mulheres
Para conhecer mais profundamente R’s do Cuidado e o Diamante dos Cuidados, visite nossa biblioteca.

Como podemos perceber, o trabalho de cuidar deve ser compartilhado entre famílias, comunidades, mercado e, principalmente, o Estado. Para isso, é essencial uma rede de equipamentos públicos que apoie e alivie a sobrecarga das mulheres. Na educação, isso inclui creches e escolas em tempo integral. Na saúde, atendimento domiciliar, centros-dias e instituições de longa permanência (ILPIs). Na assistência social, serviços como CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social — para pessoas em situação de risco pessoal ou social que demandam intervenções especializadas da proteção social especial) e CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). E nas políticas para mulheres, equipamentos como DEAMs (Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher) e CRAMs (Centro de Referência de Atendimento à Mulher). Cuidar é uma responsabilidade coletiva — e o Estado precisa fazer sua parte.

A atuação ativa do poder público é essencial na luta pela redistribuição das tarefas de cuidado. São essas mesmas tarefas que hoje tornam a vida das mulheres precarizadas e subtraem horas dos seus dias. 

Já imaginou se as cuidadoras pudessem dedicar parte do seu tempo ao autocuidado, em vez de estarem sempre sobrecarregadas com os outros e com atividades domésticas?

O autocuidado seria a "capacidade" de pessoas e comunidades de promoverem sua própria saúde e bem-estar. No entanto, essa capacidade é determinada, em grande medida, pela disponibilidade de tempo livre — uma recurso que normalmente mulheres cuidadoras não dispõem — e de serviços públicos adequados que facilitem e possibilitem o acesso a esse autocuidado.

Para conhecer mais profundamente sobre autocuidado e saúde mental, visite nossa biblioteca.

E afinal, o que é “cuidado”?

Agora já sabemos que o cuidado está presente em todo lugar, sustentando a economia e a vida em sociedade. Ele envolve várias atividades que, à primeira vista, nem sempre reconhecemos como tal. Mas então como definimos o que é cuidado?

Embora ainda não haja um consenso definitivo para essa resposta, tivemos recentemente um marco importante no Brasil, sobretudo no que diz respeito à definição para a atuação pública.

Em 2023, foi criada a Secretaria Nacional de Cuidados e Família (SNCF) — hoje chamada Secretaria da Política de Cuidados e Família — dentro do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. De forma inédita, o Governo Federal estabeleceu um órgão dedicado especificamente para tratar do cuidado.

Para orientar essa política, foi definido um marco conceitual que descreve cuidado como:

“O trabalho cotidiano de produção de bens e serviços necessários à sustentação e à reprodução diária da vida humana, da força de trabalho, da sociedade e da economia e à garantia do bem-estar de todas as pessoas”

A respeito da Política Nacional de Cuidados (PNC), observe o que a pesquisadora [] tem a dizer:

A Política Nacional de Cuidados (PNC) ressalta a importância da realização cotidiana e da coparticipação de diferentes atores — famílias, comunidades, instituições civis e Estado.

Infográfico listando Atividade doméstica não remunerada, Atividade não remunerada de cuidados de pessoas, Trabalho remunerado de cuidados domésticos, Atividades de autocuidado, Serviços públicos como creches infantis. Tudo isso é cuidado essencial!
Por que é importante existir um observatório de dados sobre a temática dos cuidados?

O Bahia Cuida é um observatório de dados dos cuidados que serve para jogar luz à temática dos cuidados e monitorar como o peso deste trabalho invisível impacta na vida das mulheres.

No vídeo, nossa especialista aborda a importância de um observatório de dados dos cuidados.

Agora que percorremos esse caminho, volte a atividade do início. Leia o que você escreveu e compare com o que descobriu aqui.

Como você definiria, agora, o que é cuidado?

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