Para você, o que são cuidados?
Guarde a resposta para o final.

O que são "cuidados"?
Talvez você já esteja imaginando que as respostas costumam variar bastante (e você tem razão!).Embora as pessoas saibam na prática o que é cuidar, chegar a uma definição objetiva costuma ser desafiador. Isso porque o conceito ainda está em disputa, envolve diferentes agentes e, portanto, reúne muitas interpretações e narrativas.
Uma mulher que faz companhia à avó nas atividades, é cuidado?
... e a oferta de creches públicas nas comunidades é considerado cuidado?
...e uma diarista executando atividades domésticas é considerado cuidado?O entendimento sobre o cuidado vem ganhando luz à medida que aprofundamos a nossa visão sobre suas camadas. No vídeo, a especialista Kelly Agopyan aborda sobre o que são os cuidados:
Percebeu que, como explicado no vídeo, o conceito de cuidado se torna cada vez mais complexo e rico? Uma atividade que, em sua maioria, acontece dentro dos lares é, na verdade, um trabalho essencial para o funcionamento de toda a sociedade (e muitas vezes invisível!).


Quem cuida no Brasil?
No Brasil, a organização social dos cuidados está longe de ser perfeita. Os papéis de gênero ainda associam o trabalho de cuidado quase exclusivamente às mulheres. Quando incluímos o recorte racial, vemos que são principalmente as mulheres negras que exercem esse papel no país. Outro dado relevante: praticamente todas as mulheres realizam atividades de cuidado não remunerado, mas o número de horas dedicadas cresce à medida que a renda diminui.

O trabalho invisível dos cuidados e impacto na economia


A falta de reconhecimento das atividades dos cuidados agrava um problema já existente: o déficit de cuidados, que muitos chamam hoje de ‘crise dos cuidados’.

5 R’s do Cuidado
Para enfrentar esse cenário, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) elaborou uma estrutura de recomendações que visa garantir o acesso adequado aos cuidados a quem precisa, e melhorar as condições de vida e trabalho das pessoas cuidadoras.
Reconhecer
Reconhecer o trabalho de cuidado e visibilizar a importância do cuidado para a sociedade.Reduzir
Reduzir o tempo dedicado à realização do trabalho de cuidado (não remunerado), por meio da expansão de políticas públicas que consolidem infraestruturas e sistemas de cuidado.Redistribuir
Redistribuir de forma justa o trabalho de cuidado entre os diferentes setores da sociedade - lados do Diamante dos Cuidados - e de forma igualitária entre homens e mulheres, superando os papéis de gênero.Representar
Dar voz às pessoas cuidadoras, seja as remuneradas e não remuneradas, de forma com que possam participar da tomada de decisão e ter suas demandas supridas.Remunerar
Remunerar de forma justa as/os trabalhadoras/es dos cuidados, garantindo trabalho decente e acesso à proteção social.Diamante dos Cuidados
Já a pesquisadora Shahra Razavi desenvolveu o Diamante dos Cuidados, um modelo que mostra como essa responsabilidade deveria ser compartilhada entre quatro grandes atores: Estado, sociedade civil, mercado e famílias. A ideia aqui é simples, mas poderosa: quando um desses atores não assume sua parte, os outros ficam sobrecarregados, que é justamente isso que vemos hoje nas famílias e comunidades.

Como podemos perceber, o trabalho de cuidar deve ser compartilhado entre famílias, comunidades, mercado e, principalmente, o Estado. Para isso, é essencial uma rede de equipamentos públicos que apoie e alivie a sobrecarga das mulheres. Na educação, isso inclui creches e escolas em tempo integral. Na saúde, atendimento domiciliar, centros-dias e instituições de longa permanência (ILPIs). Na assistência social, serviços como CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social — para pessoas em situação de risco pessoal ou social que demandam intervenções especializadas da proteção social especial) e CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). E nas políticas para mulheres, equipamentos como DEAMs (Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher) e CRAMs (Centro de Referência de Atendimento à Mulher). Cuidar é uma responsabilidade coletiva — e o Estado precisa fazer sua parte.
A atuação ativa do poder público é essencial na luta pela redistribuição das tarefas de cuidado. São essas mesmas tarefas que hoje tornam a vida das mulheres precarizadas e subtraem horas dos seus dias.
Já imaginou se as cuidadoras pudessem dedicar parte do seu tempo ao autocuidado, em vez de estarem sempre sobrecarregadas com os outros e com atividades domésticas?
O autocuidado seria a "capacidade" de pessoas e comunidades de promoverem sua própria saúde e bem-estar. No entanto, essa capacidade é determinada, em grande medida, pela disponibilidade de tempo livre — uma recurso que normalmente mulheres cuidadoras não dispõem — e de serviços públicos adequados que facilitem e possibilitem o acesso a esse autocuidado.

E afinal, o que é “cuidado”?
Agora já sabemos que o cuidado está presente em todo lugar, sustentando a economia e a vida em sociedade. Ele envolve várias atividades que, à primeira vista, nem sempre reconhecemos como tal. Mas então como definimos o que é cuidado?
Embora ainda não haja um consenso definitivo para essa resposta, tivemos recentemente um marco importante no Brasil, sobretudo no que diz respeito à definição para a atuação pública.
Em 2023, foi criada a Secretaria Nacional de Cuidados e Família (SNCF) — hoje chamada Secretaria da Política de Cuidados e Família — dentro do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. De forma inédita, o Governo Federal estabeleceu um órgão dedicado especificamente para tratar do cuidado.
“O trabalho cotidiano de produção de bens e serviços necessários à sustentação e à reprodução diária da vida humana, da força de trabalho, da sociedade e da economia e à garantia do bem-estar de todas as pessoas”
A Política Nacional de Cuidados (PNC) ressalta a importância da realização cotidiana e da coparticipação de diferentes atores — famílias, comunidades, instituições civis e Estado.

O Bahia Cuida é um observatório de dados dos cuidados que serve para jogar luz à temática dos cuidados e monitorar como o peso deste trabalho invisível impacta na vida das mulheres.
No vídeo, nossa especialista aborda a importância de um observatório de dados dos cuidados.
